SONHO
A casa ficava abaixo da rua. A escada até a porta tinha um metro e pouco. O velório já tinha acabado e seguiram para o enterro. Nem vi a morta. Sra.Rhôme (não lembro o pimeiro nome), só sei que era a mãe de uma colega de colégio. Estava tudo vazio. Somente minha máe permanecia para cuidar da casa que ficara sem viva alma. Provavelmente só a alma da defunta.
E tudo no lugar tinha as marcas de quem se foi. Pertences de um pessoa antiga, móveis de qualidade, cortinas de quem é rico, mas tudo muito gasto. Denunciava que náo tinham sido trocados desde que foram ali plantados. Muitos quadros, cristaleira abarrotada, quase tudo na penumbra. Passamos pela cozinha, eu e minha máe, e saímos para o quintal. Fumei um cigarro e ficamos conjecturando perto a um poço num quintal também velho e mal cuidado. Minha mãe precisava ir embora. Sugeri que fosse, e eu ficaria aguardando a volta dos parentes. Não poderia levá'la para que a casa não ficasse à mercê de ladrões. Sugeri que chamássemos um táxi. Nisso um telefone tocou. Entramos na cozinha e na parede tilintava um objeto de raridade. Era um aparelho que só encontramos em museus. Um telefone de porcelana na parede, dentro de uma redoma de vidro. Quando fui tirá-lo do gancho, após remover a redoma, os fios soltaram-se e solto ficou na minha mão. Antes ouvi uma voz de moça falando meu nome. Pedi para ligar no meu celular e dei o número frisando que era outro DDD. Se pronunciou meu nome (que é tão único) é porque realmente era comigo que queria falar.
CONTINUO DEPOIS PORQUE NESTE INSTANTE ACORDEI....
Quando o celular vibrou já anoitecia e eu estava só. Uma voz masculina se identificou como o filho da falecida. Com muita delicadeza e cavalheirismo agradeceu com amabilidades minha disposição em ficar guardando a casa mas, como tinha compromissos urgentes em sua empresa, já estava a caminho de sua cidade e pedia-me um último favor, encontrar as chaves da porta e dos cadeados do portão e fechar tudo, que posteriormente entraria em contato para pegar as chaves, balancear o que estava na casa e se desfazer das quinquilharias da velha. Isto mesmo, iniciou uma conversa bem-educada e acabou todo seu charme quando se referiu aos pertences da mãe como “quinquilharias da velha”.
Fiz o que me foi pedido, deixando uma lâmpada acesa. Embora espíritos não precisem de claridade para enxergar, acendi como se fosse a luminosidade de uma vela. Mortos pedem velas !
Fui-me embora com as chaves, sem antes colocar alguns vasos de folhagens em frente à porta. Dois fortes cadeados posicionei em alturas diferentes no portão e concluí que realmente tudo estava protegido.
Ao chegar no meu prédio, já noite, fui até a sacada e me senti bem em saber que dalí poderia vislumbrar a luz acesa na casa da sra. Rhôme. Agora era aguardar que viessem apanhar as chaves e minha acidental tarefa estaria terminada.
Passou-se o tempo. À noite de todos os dias olhava na direção da casa e a lâmpada continuava acesa. Algumas vezes fiz aquele caminho para me certificar de que as coisas continuavam como deixei, já que ninguém dava notícias.. Tudo permanecia inviolável... os cadeados no portão... janelas e porta fechadas... os vasos em frente à porta, exatamente como deixei, já que tive o cuidado de marcar distâncias irregulares entre eles.
O calendário apontava dias passando, recomeçando no mês seguinte e outro e mais outro.
Viajei e levei comigo a imagem da sala, da cozinha, do quintal e do exterior daquela casa. Lembrava que em uma das paredes da sala havia a marca desbotada denunciando que um quadro fora retirado. Atinei o óbvio! Durante o velório, fora tirado os objetos de valor que a Sra. Rhôme ainda tinha consigo. Junto com o quadro partiram, em outras mãos, jóias e objetos de valor. O que ficou, por certo, não interessava aos ricos herdeiros. Demorei , mas na volta, sem mesmo olhar como ficou a minha casa, fui à sacada e constatei que a luz deixada acesa extinguiu-se. Amanheceu e parti em busca de notícias.
Tudo igual...casa fechada...cadeados também...os vasos na mesma posição. Bati na porta vizinha e uma senhora baixinha, de camisola e despenteada me atendeu mal-humorada devido ao adiantado da hora. Deu-me explicações confusas mas decifrei que toda a vizinhança estava incomodada. Viram a luz acesa, pensaram que havia alguém, porém apagou-se e algum tempo depois forte cheiro exalava de lá. Já tinham ido à delegacia reclamar e lá alegaram que nada poderiam fazer x já que era propriedade particular da família Rhôme, a qual foi poderosa no passado e hoje moravam em outro estado, longe daquí, e que seus impostos eram pagos regularmente.
Deduziram, os vizinhos, que a energia fora cortada e o cheiro seria de comida e carne podres, de geladeira e armários.
Sem justificar a curiosidade, até para não me responsabilizarem pelo que não era responsável, segui minha vida.
Mudei-me para outra cidade mas tenho sonhos que me perseguem. Não consigo livrar-me deste pesadelo. Não me culpo pelo abandono que deram às “quinquilharias da velha”, mas em divagações imagino que isto acontece em muitos lugares deste mundo ocidental. Desconheço como agem os orientais com os pertences de seus antepassados. Os egipcios depositavam seus mortos em tumbas ou pirâmides e, enquanto perdurava o processo de mumificação, por volta de 70 dias, seus pertences ficavam junto deles, pois acreditava-se que estivessem presentes e queriam que se sentissem à vontade. Não tenho conhecimento como procediam após este período.
Às vezes seus herdeiros não ignoram o espólio das recordações, no entanto acabam jogando fora o que restou do passageiro sem volta. É a continuidade da vida!
Enquanto aqueles fantasmas me seguem quero que, no futuro, a física quântica resolva isso. Dê marcha à ré e quando alguém morrer, já vivendo na solidão, seus guardados... sua vida material ...retroceda à moléculas e, guardados num minúsculo recipiente, num frasco de colírio por exemplo, sigam juntos até a última morada.
Nossas recordações, lembranças materiais sem valor financeiro, só a nós interessam. São valores nossos. Aos que ficam, interessa aquilo que se troca ou se vende. E quanto mais posses os herdeiros têm, menos interesse nas coisas de valor sentimental. Isso só ao morto persistia enquanto vivo. Morrem com ele. Os pertences sem valor monetário devem seguir ao destino final.
E que a sra. Rhôme descanse em Paz !!!
Agosto..2014