O telhado da Igrejinha , embora branco, estava escurecido pelo sombreado das aves que revoavam entre ele e o sol.

Passei apressado com receio que me vissem e estragassem tudo que planejei com tanto esmero, nas horas vazias de meu tosco quarto. Medo infundado já que a praça era deserta. Somente os pássaros poderiam me delatar.

Minha barba era crescida, mas com certeza alguém que tivesse visto minha foto estampada nos jornais, TV ou redes sociais me reconheceria pela assimetria de meu nariz.

Ao redor morros que estranhamente eram demarcados por estradinhas. Digamos que eles, os caminhos, serpenteavam os morros um a um. Nunca vi nada igual.

Apressei o passo, cruzei a pracinha e percebi que tinha mesmo que apelar pela intuição,porque a razão não dava sinal algum. Esquerda. Direita. Em frente. Ou retornar. Nada me orientava para o futuro. O que martelava meu cérebro era o que ficou num passado recente.

Tinha passado a noite acordado, olhando as paredes escuras de um quarto que não era o meu. De um lado da porta, um espelho, medindo pouco mais que minha mão aberta e na mesma porta, abaixo de um gancho que usava para pendurar o casaco, estava colado um calendário grande, com uma triste figura sentada ao pé de uma árvore, lendo ou imitando ler um livro e na capa do mesmo, um título profético “CORRA. NINGUÉM VAI ATRAS!^ Calendário antigo, mas que usei como referência para marcar os dias que iam passando. A cadeira usei como mesa de cabeceira e a sacola com roupas essenciais ficava no chão mesmo. Levantei=me, fui até a porta e conferi melhor o título do livro e, por mais que me esforçasse não lembrava de ter lido aquilo em todos os dias e noites que estava alí refugiado. Achei mesmo que só ficou legível agora e que saltava dalí para meus olhos e se tornava também audível. Ouvia aquelas palavras e era tudo que precisava para me mexer, sair daquele marasmo e enfrentar nem sabia o quê, mas se fazia necessário.

Quando meu avião caiu, agarrei a mochila e ainda correndo entre as árvores escutei o estrondo da explosão. Quanto tempo corri, andei e me arrastei não tenho noção exata. Calculei pelo tanto que a barba cresceu. Não exatamente, porque dormia ao cansar e sei que com o sono entrecortado e incerto ela deve ter crescido a mais ou a menos. Chuva e frio resultaram em gripe e febre. Ao alcançar uma esplanada cai e quase desacordado senti que alguém me lambia. Lambia e latia. E foi com o som continuado das latidas que apaguei cem por cento.

Disse-me ela que fiquei desacordado e febril por algum tempo, mas não precisou o quanto. Acordei naquele quarto que agora deixara, vestia um tipo de camisola e ao meu lado estava aquela mulher que , com certeza, me achou e salvou, pque sem uma ajuda estaria provavelmente rodeado de anjos......ou demônios. Era uma mulher comum, matuta mas delicada e continuou por dias me dando um caldo na boca e curando meus ferimentos. Sarei também da gripe e senti que já raciocinava pois tinha uma preocupação crescente sobre o acontecido e que seria necessário avisar minha mulher, minha empresa, meu mundo. Passei mais dois dias e duas noites naquela modorra. Na manhã que acordei havia 27 dias. Foi quando passei a contar dia a dia. Ela me trouxe uma comida mais consistente e continuava tratando meu corpo, mas sem muita conversa. Até pensei que era muda, não fosse os resmungos de uma interminável canção. Mas construir uma frase, perguntar alguma coisa, nada. Eu, então, comecei a perguntar. Onde estava: Há quanto tempo::Quem ela era:

Sem respostas me encaminhou com cuidado e me amparando até outro ambiente da casa, digo, casebre, comparando ao que eu estava acostumado. Era tudo em uma peça só. Cozinha e sala com 4 portas que, depois conheci como: porta de seu quarto, porta de meu cubículo, porta de banheiro e porta da rua, de fora, melhor dizendo. Não havia rua. Fora era campo, curral um bosque e pequena plantação. Não reparei muito. Meus olhos se dirigiram rapidamente à uma TV pequena e antiga empoleirada no armário existente. Sentei-me e pedi que ligasse o aparelho. Com urgência, eu precisava saber se o meu mundo ainda existia. Se alguém queria saber se eu estava vivo. Percebi e senti o cheiro de alguma comida. Calculei ser hora de almoço e consequentemente logo começaria algum noticiário.

Estava certo. Dalí algum tempo começou o Jornal do Meio-dia. Quase ao final deu uma rápida notícia sobre o empresário que continuava desaparecido após acidente e consequente explosão de seu avião. Impossível descrever a sensação que tomou conta de meu corpo, que embaralhou meu cérebro, mas logo me refiz para ouvir mais, e concluíram dizendo que não havia terminado a perícia, mas pelo estado em que o avião foi encontrado era quase certo que o piloto empresário tinha explodido também. No caso, eu próprio.

Deu para perceber que a mulher estava acompanhando e entendendo aquela parte da notícia. Entendi também que não era a primeira vez que ela via algo sobre isso. Por certo já sabia quem era eu, o que fazia e porque apareci no seu terreno, em frangalhos.

Calados aceitei mais uma oferenda comestível. Uma provável sobremesa. Batata doce assada. Meu alimento preferido em uma infância distante. Antes desse avião cair, meu cardápio já era bem outro. Mais sofisticado.

Passou-se o dia, anoiteceu e continuei no torpor de um semi-morto, porque nem sabia se a TV estava certa e quem sabe eu teria mesmo explodido no avião e agora aguardava uma recuperação espiritual, como diziam os espíritas. Embora muito pobre, aquela casa era muito limpa e tudo que fosse de tecido era branco. A mulher se vestia de branco, a camisola que me cobria e as bandagens dos ferimentos também de extrema alvura. Toalhas, panos de prato, lençóis tudo contrastando com as paredes escuras, móveis velhos que, obviamente, não tinham cor mas escurecidos pelo tempo. Ah.... o vaso, a pia e a bacia do banho tbém eram brancas. Fiquei assim reparando e divagando sobre um possível e provável óbito.

Ela fez o serviço da casa com um olho e o outro a me observar esperando, quem sabe, uma reação do hóspede que o cachorro encontrou e bem cuidado foi, porque já dava seus passos e demonstrava sinais de consciência e surpresa. Sempre cantarolando, ou melhor, emitindo um som melodioso que às vezes acalmava, outras entediava e ao final da tarde, já irritava.

Anoiteceu, desejei boa noite e fui ao pequeno quarto verificar o que havia na sacola. Enfim ver o que restava do empresário explodido ou talvez implodido, como me sentia depois de saber o acontecido. Algumas peças de roupas esporte e por sorte tinha também uma pasta com meus documentos, cartões de crédito, celular, Ipad, biscoitos e castanhas.

Na cabeça entravam ideias e posições a serem providenciadas. Avisar minha mulher ou minha empresa. Assim como vinham, essas ideias evaporavam. Embora fraco teria que tomar atitudes, saber se haveria comunicação com o mundo civilizado. Eletrônicos descarregados e mesmo que tivessem bateria não iriam conectar naquele fim de mundo. Não lembrava qual o trajeto que fazia para, ao menos, ter uma noção de onde estava. A reportagem não citou, ou não escutei em qual região foi o acidente. Provavelmente já era bem conhecido pelo público ouvinte.

Deitei e dormi. Acordei imaginando ser madrugada. E ainda sem decisão tomada achei melhor esperar alguns dias a mais para qualquer atitude. Precisava, e muito, que a mulher respondesse algumas curiosidades e também tranquilizá-la quanto às despesas que teve comigo. Com certeza iria remunerá-la muito bem. Sem seu socorro e cuidados estaria em um lugar que não acreditava que existisse. Céu, inferno, limbo sei lá.

E assim, nos próximos dias, que poderiam ser contados em horas, já me sentia mais forte e decidido a saber ou melhor, a reagir. Precisava sair da passividade. Sem muita vontade,mas era necessário.

O aroma da comida fazia com que fosse à mesa e era me servido uma refeição simples e saborosa. Lembrando sempre minha infância, minha mãe e a despreocupação de um tempo perdido há milênios.

Acabada aquela refeição, resolvi fazer perguntas. Ela sorria mas respondia com monossílabos afirmativos ou negativos. Resolvi entrar naquele jogo e fui sabendo muito dela, de sua vida, da minha chegada, do que a televisão informou e mais ou menos onde me esncontrava. Tudo por meio de sins e nãos, ou curtas respostas. Até foi um bom exercício de raciocínio e montagem de um quebra-cabeça imaginário.

Quando falei que iria pagar as despesas e trabalhos que teve comigo ouvi uma ou duas negativas e depois um sim demorado e bem afirmativo. Mentalmente aumentei o valor pensado, Concluí que interessava ser recompensada. Teve despesas extras. Era justo. Expliquei que só trazia comigo cartões de crédito, não carregava dinheiro em espécie, mas logo que chegasse ao meu mundo providenciaria a recompensa, garantindo que não seria pouca.

À noite, recolhido no meu quarto (cubículo) fui planejando meu retorno. Andar até achar o lugarejo (como ela afirmou) onde pudesse me comunicar com a empresa. Melhor seria que a empresa soubesse em primeiro lugar e providenciasse meu resgate a fim de poupar um susto para minha mulher já devia estar bastante abalada com o acidente, a minha morte e sua viuvez, obrigando-a a tantos encargos.....polícia, bombeiros, negócios, e toda uma vida que nunca precisou organizar. Eu sempre geri tudo. Ela nem ao menos sabia como se ganhava dinheiro porque sua grande tarefa era gastá-lo tornando-se mais bonita e elegante. Participando de jantares ou reuniões filantrópicas, quando o real valor não eram os convivas ou a filantropia, mas ocasiões que permitiam o lucro de maquiadores, cabeleireiros, modistas e o rodízio pelas butiques que a recebiam com tapete vermelho e com muito carinho creditavam meus cartões.

No escuro do quarto meus pensamentos foram se diluindo e o sono se aproximando quando ouvi o ranger da porta. Um tanto assustado senti minha coberta erguer-se pouca coisa e um corpo quase em febre colar em mim. De imediato percebi o que estava acontecendo. Com sua cantiga leve foi me acarinhando, me excitando. Impossível contestar, na carência em que eu estava. Correspondi e fui arrebatado com um sexo ora selvagem, ora delicado e muito, mas muito bom. Não lembrava de algum dia ter me satisfeito tanto. Não saberia dizer se era o jejum, mas tive a certeza que nenhuma mulher conseguira isso, namorada, esposa ou amante ocasional. Fui estuprado e estuprei.

Quando o dia amanheceu ela saiu sorrateira como chegou. Só a porta rangeu.

Entendi perfeitamente sua anuência em receber pelos serviços prestados como enfermeira, cozinheira, hospedeira. Pode que este tipo de cobrança estava em mente ou surgiu quando insisti em remunerá-la . E, com o orgulho de macho, senti que a recompensei, embora o extasiado, saciado e satisfeito era eu.

Renovados, passamos o dia dentro da anterior normalidade sem tocar no assunto. Nem era preciso.

Ainda nos meus planos para e como voltar à civilização cobriu meu dia. A noite chegou, tomei meu rumo para o quarto.

Lógico que também pensei o dia todo se era sonho, devaneio, ou se aconteceu mesmo aquele vendaval noturno.

O sono chegando, virei para me acomodar na cama e o ranger da porta me alertou, Agora já sabia o que era e para que vinha. Outra noite, outras emoções. A sensação era explodir a cada frenesi, se é assim que se diz. Parecia-me impossível mas, com certeza mais primoroso ainda. Aquela mulher era outra embaixo de minha coberta ou sem coberta. Em nada recatada como até então. Em nada recatada como passou no dia posterior a toda nossa revolução sexual. Sim, não tocamos no assunto nem mesmo nos encaramos. Não era vergonha. Era respeito. Como se nada tivesse acontecido conosco e sim com outro casal sôfrego, nessecitado de sexo, amor, sei lá o que mais. E se nos olhássemos poderia desvanecer tudo. A claridade do dia era muito real, a noite era emoção.

Estava pagando a hospedagem com o maior prazer e ela cobrando com perícia e carinho. Não a via como prostituta muito menos eu como estuprado. O consenso, a intensidade, o prazer eram mútuos.

Até então, só tinha pensado em mim, quando e como voltaria para o meu mundo, a minha vida que tinham ficado para t´ras. A partir de nossos prazeres noturnos alfinetou-me a curiosidade sobre ela. Como vivia e o que fazia para se sustentar. Teria parentes … Algum marido voltaria de uma longa viagem e nos daria um belo fragrante. Mataria ela ou eu, quem sabe os dois.

Comecei pela casa que estava bem necessitada de reparos masculinos, o que denotava não ter marido ou homem que fizesse isso por ela. O trabalho feminino era perfeito, na medida do que se precisava. Tudo muito asseado e, como já notara , o branco era predominante nas roupas pessoais, nas de cama e mesa. Confiei que não seria surpreendido por homem nenhum. Sai ao redor da casa . Uma plantação bem feita e produtiva se espalhava em canteiros com diversos tipos de legumes e verduras. À sombra da casa cestas cheias do que era produzido pela grande horta. O sol estava forte e em um gramado, feito coarador, as roupas esquentavam-se estendidas parecendo leite derramado. O cachorro, enorme, tinha seu terreno limitado pela educação, pois abanou o rabo, latiu um pouco, mas não saiu de seu posto ou do que lhe era imposto. Vi água encanada de um poço artesiano, antena parabólica muito grande para o contraste da pequena TV antiga da casa. Logo atrás da casa, no sentido sul começava um bosque. Quem sabe foi dalí que saí me arrastando ou arrastado por ela com a ajuda de alguém ou do cão bem educado. Escrutinei o que pude imaginando como teria vindo para cá essa mulher ou ,quem sabe, nascido alí mesmo.

Quando voltei ao interior da casa senti o cheiro agradável da comida . Fui logo lavar as mãos e sentar-me para a refeiçao. Ainda estávamos comendo quando se ouviu uma buzina de carro avisando que chegava. Senti uma apreensáo pela ideia de um marido chegando. Calmamente ela fez uma mesura como para pedir licença e foi para fora receber o ou a visitante.