(fev.2014)

FORTUNA FARTA FIZ

A porta abriu. Rangeu um bocado antes de escancarar. Todos correram para trás do balcão que dividia cozinha e quarto.

Misteriosamente a lufada de vento varreu todos os papéis que descansavam na mesa, deu meia volta e fechou a porta.

Foram saindo um a um do esconderijo e em vão procuraram toda a papelada. Eram tão importantes, naquele momento, que ninguém

se perguntou, ninguém questionou o que o vento fez e por que agiu assim. Escrutinaram os dois aposentos, milimetro a milimetro, e nada encontraram. E eram tão importantes!!! Necessários, por assim dizer. Todos esperavam saldar suas dívidas ou, quem sabe, comprar algo que os compensasse da longa viagem e do rastreamento nos baús, gavetas e caixas que a velha mantinha entupidos de quinquilharias. Afinal, vieram, sepultaram a velha e até chamaram um padre para abençoar sua ida.

Tereza chegou primeiro, pois sempre queria saber segredos e engodos antes de qualquer primo. Pura curiosidade! E foi ela mesma que encontrou, atrás da porta, uma tábua com dizeres poucos, mas que denunciavam algum segredo maior. Gravado, provavelmente com a ponta de um punhal em brasa, o simples texto: FORTUNA FARTA FIZ.

Os outros foram chegando um a um: Maciel (sempre suando); Jaime (metido a bacana); Antero com sua Joana (entre tapas e beijos); Vânia e seu namorado novo (que de novo nada tinha) e Zenaide (irmã de Tereza e a mais velha de todos).

Foi Zenaide que recebeu a notícia do passamento da tia-avó e re- lembrou a todos o desejo, até mesmo a ordem do avô, para que seus netos atendessem sua irmã quando idosa; e falecida a colocassem num ataúde branco (nunca foi desvirginada), acompanhassem até o cemitério local e dessem fim em seus pertences. Sua alma não poderia ficar vagando na casa, muito menos seu corpo na superfície. Precisava de sete palmos.

O que possuiam, embora já tinham dilapidado quase tudo, veio deste avô. E, fora essa dívida moral, ainda ecoava em seus ouvidos sua voz de trovão, não deixando dúvidas que se desobedecessem seu desejo, muito se arrependeriam. Deixaram seus compromissos e se encontraram no barraco, agora guardado pelo policial e alguns cachorros da velha. Quando Tereza chegou, o policial entregou o local, se despediu e se descomprometeu. Os cachorros permaneceram para acompanhar o féretro. Ela entrou, abriu as janelas, para despistar aquele cheiro azedo, de mofo, de morte. Procurou uma vassoura, atrás da porta, e encontrou a dita tábua. Esqueceu por completo que iria dar uma varrida nos aposentos. Concentrou todos seus neurônios (não tantos assim) nos dizeres da tábua. Aquilo só poderia ser um recado, tinha que ser uma pista. Lendo de trás para diante, Tereza só pensava em FIZ FORTUNA. Precisava encontrar alguma coisa. Não sabia o que, mas tinha que buscar. Queria valores, queria outras pistas. Ninguém se dá ao trabalho de esquentar um objeto de aço ou ferro gravar três palavras aleatórias, e deixar esquecido atrás da porta.

Ao chegarem, um a um foram tomando conhecimento do achado de Tereza e concordando que era preciso procurar. Haveria algo de misterioso neste indício e todos pensavam em cifrão. Afinal, o avô fez fortuna, partindo do nada, por que sua irmã não teria feito o mesmo? Poderia estar vivendo nesta miséria por muitos motivos. Pessoas sovinas, avarentas não se preocupam com luxo ou mesmo limpeza. Se também estivesse caduca, toda a mesquinharia era aceitável.

Como todos já haviam chegado e cientes da possibilidade de encontrar algo, a busca foi intensificada, armários, baús, gavetas e caixas desocupados. As coisas pareciam aumentar quando retiradas e amontoadas no chão, mesa e cadeiras.

Joana, mais organizada, resolveu que sua função seria pôr ordem naquilo para desafogar caminhos; estavam pisando nas quinquilharias e dificultando a procura. Na verdade, nem mesmo sabiam o que procuravam. Foi então separando louças (poucas); roupas (muito velhas) e diversos. Diversos consistia em talheres, ferramentas, frascos incógnitos ou vazios (de sei lá o quê). Maciel ajudou-a levar para fora do casebre e lá a divisão ficou mais clara. Iniciaram a queima das roupas e de tudo que fosse inflamável, lotaram caixas com louças, panelas e todo o etc.

Jaime achou de grande importância papéis, revistas e cadernetas com anotações para posterior análise.

Alguém sugeriu que precisavam acomodar a defunta em seu derradeiro leito. Chamaram Maciel e decidiram pela colocação do ataúde em cima da mesa, local de respeito.

Vânia trouxera álcool, hidratante, água perfumada, óleo e talco. Veio prevenida, pois não tinha nenhuma intenção de lavar defunto e bem imaginava o que iria encontrar. Carregou junto um blush e batonzinho velhos, pois jogaria fora mesmo.

Tereza, na pressa de chegar primeiro, pegou na lavanderia de casa uma cortina de renda, caso precisasse de uma mortalha.

Maciel, com ajuda de Antenor colocou o imaculado caixão em cima da mesa. Ela balançou, mas resistiu.

As quatro mulheres chegaram ao leito, sentiram aquele cheiro já vencido mas, bravamente e também com rapidez, despiram (sem muito olhar) a velha, desinfetaram, besuntaram, maquiaram (entre uma piada e outra) e enrolaram a tia-avó na cortina de renda, deixando aparecer apenas o rosto. Nem mesmo pentearam os cabelos. Não precisava. Grande idéia as meninas tiveram em vir prevenidas. Jamais fariam coisa melhor com o que encontraram na morada. Sem muito esforço e com riso frouxo introduziram a morta no alvo caixão. Observações à parte, ficou de apresentável a muito bem. Parecia uma noiva que dormiu e esqueceu de ir pra Igreja. Dormiu por quase um século.

Feito isso, resolveram examinar papéis, revistas, cadernetas. Lugar ideal seria na mesa. Deixaram, por enquanto, a morta na cama. Agora já acomodada, limpa, cheirosa e bem vestida poderia esperar o quanto fosse necessário.

Deitaram o ataúde no chão, transportaram para a mesa todos os papéis, revistas e etc. E iniciaram a auditoria.

Até então (fora a ansiedade interior) parecia serviço orquestrado. Nada de brigas ou discussões. Qualquer sugestão era bem vinda. Afinal, nada de nada. Não acharam, até então, nada que confirmasse a fortuna ou indicasse algum caminho. A penúltima claridade do dia sumia atrás das árvores.

Ao passar pela vila, Maciel tinha chegado na capela e acertado com o padre uma vinda ao sítio para abençoar e também acompanhar a tia-avó até a última morada. Não iriam até a vila, pois não havia necessidade, já que a mesma não tinha amizades. Fariam, somente eles, o cortejo até o cemitério, que era bem próximo. Melhor somente o padre se locomover. E esta era uma de suas funções. Encomendar os mortos.

Nisto, os cães latiram e notou-se a chegada do padre. Lamentou sua demora pois teve que promover a santa missa. Na verdade, tinha mesmo esquecido este compromisso. Mal conhecia a defunta, mas sabia que era pessoa ausente da lista de dizimistas. Aprumaram-se todos e, rapidamente os quatro homens levaram o esquife até a caminhonete de onde veio.

Mesmo na pressa de aproveitar a claridade, Zenaide lembrou que não tinham uma lápide. Joana, a organizada, agarrou a tábua gravada e anunciou que seus dizeres seriam de pouca importância. O essencial era demarcar a cova.

Seguiu o esquife, rápido como se fugissem de um temporal. No cemitério, ouviram ou não as breves palavras do pároco. Com duas estacas apoiaram a tábua nada significativa: Fortuna Farta Fiz. Gratificaram o coveiro e o padre e, já noite, retornaram ao barraco. Nenhum se atreveu em voltar para sua casa.

Entraram para examinar os papéis, agora sem a presença da velha, e foi aí que se deu a lufada do vento e em seguida Tereza passou a gritar: - Foi ele! Foi ele! Só pode ter sido ele. Diante do espanto de todos e do susto do namorado de Vânia, por que tinha surrupiado uma pistola que encontrou sobre um ármario e confiscou para sua coleção, Tereza lembrou que o policial contara que o único ser vivo, além dos cachorros, um velho carpinteiro visitava a morta. Na hora não deu importância e esqueceu o fato, mas agora que a fortuna não era encontrada, achou um culpado. Relatou sua dedução. Alguém, ou seja, aquele velho pode ter achado antes o que eles procuravam sem sucesso.

Concordaram mas, mesmo assim, resolveram voltar à busca, sem nenhuma deserção. O único disposto a debandar era o namorado de Vânia. Tinha encontrado sua recompensa, a pistola e também perdido, nos entulhos, o comprimido azul que trouxera no bolso da camisa, o qual garantia sua virilidade, caso a namorada fogosa avistasse, na estrada, algum lugar apaixonante. Visto que ela também ficava, ficou.

O vento inexplicável, sobrenatural esqueceu um ou outro papel enroscado na cadeira, atrás da porta, embaixo da cama...Foi para eles dedicada maior atenção. Mal desenhado, mas perfeitamente compreensível deduziram que estampavam plantas baixas de algum projeto, seja de casa ou cercado. Escrito alí no retângulo Fortuna e Farta , no retàngulo ao lado lia-se Fiz. Iluminaram-se com outra pista. Só poderia ser. Indicavam aqueles desenhos alguma coisa. Todos mudos. Jaime apontou o chão do barraco. Samuel e Antero, imediatamente, sem perceber que só eles iriam fazer o trabalho pesado, iniciaram arrancando as tábuas do quarto, as mulheres levavam para fora. Jaime e o namorado de Vânia observavam dando ordens. Do quarto passaram à sala, amanheceu e nada acharam além de ratos, baratas e muitas teias de aranha.Suados (Maciel em bicas) deram por encerrado o escrutínio no piso demolido.

Cansados e famintos sentados ao redor do barraco semi-destruído, prestes a tomar uma seguinte resolução quando ouviram barulho de uma carroça. Tudo indicava alguém chegando e todos pensaram na situação ridícula que apresentavam. Nem mesmo um maluco acreditaria naquela história doida, vendo aquele cenário. Oito pessoas com aparência de classe média, pois a sujeira não escondia roupas e sapatos bem comprados, olhando para os entulhos à sua frente. Não se encaravam. Não tinham coragem de admitir um ao outro aquela ânsia pelo dinheiro e a insana busca. A necessidade de encontrar envergonhava agora mais ainda. Agiram como crianças em busca de doce ou viciado na falta do vício.

Aquilo nunca foi uma família. Eram parentes na linha colateral sem convivência alguma. E hoje, agiram como se fossem vinhos da mesma pipa. Irmanados pela ganância, nenhum arredou pé. Desistir seria favorecer aos que ficassem.

Nem mesmo daria para avaliar qual o mais decepcionado ou o conformado com a situação. Viam o sonho acalentado em quinze a vinte horas, ir-se como a lufada de vento. A qual não foi explicada e também não importava mais. Fosse natural ou sobrenatural já caira no esquecimento.

Neste tempo que estiveram unidos no trabalho, os pensamentos eram diversos, mas os sonhos se concretizariam com a fortuna anunciada. Seria uma ajeitada na vida de cada um. Nem precisava tanta sofreguidão.

Vânia pensou em cremes, perfumes, maquiagens importadas, bolsas , sapatos e roupas (de marca) e, dependendo de valores encontrados, livrar-se do namorado. Comprar um mais novo, ainda em forma. Inverter a situação... Bonito talvez; tudo que é novo é belo.

Antero imaginava quase o mesmo que Joana. Casa em bairro nobre, carro novo, viagens.

Tereza iria aplicar seus valores em algum fundo de investimento para garantir uma melhoria na sua posterior idade.

Zenaide já procurava mentalmente uma casa de repouso para o marido e partiria em cruzeiros mundo afora.

Jaime concentrava-se na continuidade de sua boa vida, bebendo e jogando cartas ou conversa fora com seus amigos intelectuais. Jogaria na bolsa de valores também, já que o tinham jogado fora de três casamentos.

Maciel daria mais conforto à amante e melhor colégio, até mesmo um carro, para a filha que tiveram, a qual sempre seria considerada fora do casamento. Sua família oficial nem precisava ficar sabendo do sucedido.

Enfim, agora teriam mesmo é mais despesas e Samuel pensava como falar em rachar os custos do ataúde, padre, coveiro etc., assunto que adiou mediante a descoberta da tábua.

Voltaram ao tempo presente quando a carroça chegou com um pequeno carregamento de tábuas, telhas velhas e ferramentas e o velho condutor apeou. Apresentou-se àquele bando insano e ficou sabendo, por um deles, da morte de sua conhecida ou amiga, já sepulta.

Antes de avançarem com perguntas ou ameaças o velho traduziu por que trazia ferramentas e material de construção. No seu linguajar caboclo disse que acertou a construção de uma casa para os cachorros, a pedido da agora falecida. Ela queria que fosse de bom tamanho. Tendo uma repartição para cada um. As cadelas até poderiam ficar na mesma, mas era de seu gosto separar o macho, tal qual os desenhos encontrados naqueles papéis que o vento não levou.

Sem muitas conversas. Gente cansada e caboclo carpinteiro não encontram muito diálogo. O velho despediu-se e já ia se retirando quando um cão latiu. Voltou, e sem saber a quem se dirigir, perguntou a todos e nenhum se poderia ficar com os cachorros.

Concordaram com um balanço de cabeça e o velho se arriscou a fazer mais um pedido. Como ia mesmo fazer a casa pra eles, queria levar a placa que a falecida fez. Ninguém respondeu e ele virando nos calcanhares ordenou em voz baixa:

Fortuna..... Farta.... Fiz..... assobiou e as duas cadelas com o macho abanaram os rabos e seguiram a carroça!!!