Aparências

Sonho em Fevereiro; 2015

Começaram a vida assim. Respeitados, felizes e invejados pelas casadoiras de plantão.

Sim, Vicente era bom médico, atencioso e simpático com a clientela. Janaina, entre um jantar, um lanche beneficente e todos aqueles compromissos de um casal em ascenção, teve um filho. Guilherme chegou num quarto finamente decorado, enxoval rico e babá para que mamãe não se cansassse. Vicente nem mesmo deixou Janaína amamentar para não deformar seu corpo. E Janaína concordou.

Como confidente eu sabia que a vida deles diferia completamente das aparèncias. Vicente infiel, Janaína ciumenta, sofredora e se entupindo de calmantes. Encontrei-a, inúmeras vezes, em casa, zonza, sem me reconhecer. Vicente simpático a todos. No lar, um troglodita.

Um não queria perder o outro e para o outro. Brigavam e quebravam o que estivesse pela frente. Sabíamos eu e as empregadas. A quebradeira não os atingia fisicamente. Eram coisas que se espatifavam. Ninguém os via lesionados, com arranhões ou olho roxo.

Naquele dia cheguei na casa de Janaína e ela estava de malas prontas para fugir.

E, para meu azar, seria cúmplice. Teria que ficar e distrair Vicente o tempo suficiente quando fosse pegar a estrada, pois se ele descobrisse antes que fôsse dada certa distância, poderia alcançá-la e daí, nem pensar no desfecho.

Saiu em seu carro, com malas, Guilherme e muita raiva contida.

Da porta vejo, que pára pedindo informação (sei lá porquê) a um adolescente, conhecido na cidade como um tanto retardado.

Chega Vicente, espumando de ódio, chamando por Janaína e eu, na condição de apaziguadora mentirosa, tive que fazer a cena que me foi solicitada, demonstrando nada saber. Fingindo, em partes, porque na verdade não sabia mesmo o destino deles.

Entrei na casa acalmando Vicente, fui ao quarto, chamei por Guilherme. Tudo em rebuliço e a ausência de mãe e filho comprovou a fuga.

Vizinhos chegaram pensando no pior ao ouvir os gritos e impropérios do Dr. Vicente.

Todos queriam ajudar, de alguma forma, no desespero e na raiva daquele homem enfurecido.

Foi daí, que o adolescente, meio gaguejando, falou ao seu doutor.

_Vi dona Janaína inda pouco. Parou o carro e me perguntou qual a melhor estrada para o Sul.

Vicente sacudiu o rapaz gritando e repetindo na forma de pergunta...

_ Sul? Sul? Sul?

E o outro, assustado, só sacudia afirmativamente a cabeça.

Entendi porque Janaína parou o carro e perguntou algo para uma pessoa que não lhe devolveria perguntas e transmitiria o recado. Queria tempo. E ganhou, pois Vicente seguiu para o Sul em muitos caminhos e quilômetros, em muitos dias. Por certo foi se acalmando na trajetória.

Voltou, amigou-se com sua secretária, a qual já esperava por isso, depois de tantas fornicadas às escondidas. Tornou-se a esposa às claras. E a vida seguiu.

Como vivem não sei pois minha amiga e confidente era Janaína.

Tenho saudades dela e quando olho para o Norte torço para que esteja feliz com seu Guilherme e ,quem sabe, com outro homem, outros filhos, outra vida.